Psicanálise Lacaniana



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Este é o site de Artigos sobre Jacques Lacan

Ocupação

Buscamos através de uma pesquisa, selecionar matérias obtidas através de Jornais e Revistas que possam interessar ao público lacaniano de uma maneira geral. Informamos que este site não tem fins comerciais, sendo publicado com o intuito de ajudar principalmente aos estudantes, de todos os tipos, da área de psicanálise. Sempre estaremos atualizando este Site. Participe, envie um e-mail ou entre no Grupo de Estudo e Discussão.

ROTEIRO
1-Um século de Lacan.
2-A linguagem do inconsciente.
3-Desejo como poder.
4-Sessões supercurtas são escroqueria.
5-Influência na psicanálise brasileira .
6-Herdeiros assumiram posição servil.
7-O que permanece em Lacan.
8-A linguagem do inconsciente.
9-Desejo como poder.
10-A construção do mito Lacan.
11-As teorias dos analistas.
12-Uma visão lacaniana.

1- Um século de Lacan.
Polêmico psicanalista francês repensou o sistema freudiano e criou uma escola psicanalítica.
Lacan, refundador da psicanálise. Lacan, transgressor. Lacan, maître à penser. Lacan, venerado. Lacan repudiado. Todos os Lacans serão lembrados no dia 13 de abril, quando o psicanalista francês comemoraria 100 anos. No mundo inteiro, assim como no Brasil, estão sendo promovidos seminários para discutir sua importância para a psicanálise.
No segundo semestre deste ano, no dia 9 de setembro, vigésimo aniversário de sua morte, nova oportunidade para se voltar a enfatizar a importância do maior psicanalista francês, que, um dia, deixou escapar a boutade: ''Fui eu que inventei o inconsciente''. Segundo uma de suas biógrafas, Elisabeth Roudinesco, é inegável a importância de Lacan: ele dotou a doutrina psicanalítica de uma concepção ''pós-saussuriana'' do inconsciente, além de uma teoria cartesiana do sujeito. Foi nos estudos de Ferdinand de Saussurre e de Roman Jakobson que Lacan se inspirou para criar a teoria de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, atribuindo ao significante uma posição de predominância sobre o significado. Pertencente à segunda geração da psicanálise francesa, Lacan foi, de sua geração, o único herdeiro de Freud a repensar todo o sistema criado pelo fundador da psicanálise.
Leneide Duarte.
JORNAL DO BRASIL
Para marcar o centenário de Lacan, o Idéias publica uma entrevista com a psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco, além de artigos dos psicanalistas franceses René Major e Michel Plon e dos brasileiros Antônio Quinet, Joel Birman, Paulo Sternick e Marco Antônio Coutinho.

2-A LINGUAGEM DO INCONSCIENTE.
No dia 13 de abril de 1901 nascia Jacques Lacan, um ano depois do lançamento da obra fundadora da psicanálise: a Interpretação dos sonhos, de Sigmund Freud. Apesar de não terem se freqüentado, é Lacan quem promoverá nos anos 50 o famoso movimento de retorno a Freud, trazendo os textos freudianos para o foco de interesse não só de psicanalistas (dispersos em outras referências) como também de médicos, filósofos, lingüistas, antropólogos, literatos, matemáticos e do público em geral que vinha assistir aos seus seminários. Esse movimento continua até hoje: a conexão da psicanálise com outras disciplinas chegou para ficar.
Lacan procurou dar um status científico à psicanálise, utilizando recursos da matemática e da lógica (da teoria dos conjuntos à topologia). Seguindo o ideal de transmissão próprio à ciência, ele propôs ''matemas'' (''o que se ensina'', em grego) tanto para os conceitos freudianos quanto para os que ele foi produzindo ao longo de seu ensino (grande Outro, sujeito barrado, objeto ''a'' etc), compondo, assim, uma ''álgebra lacaniana''. Por outro lado, sempre acentuou a especificidade e a independência do saber psicanalítico em relação à magia, à religião e à ciência (na medida em que esta rejeita a verdade do sujeito do inconsciente). E nunca deixou de enfatizar a singularidade da relação analista/analisante, vínculo inventado por Freud em contraposição a todos os outros já existentes.
Lógico por um lado, literário por outro, o psicanalista, dizia Lacan, deve ser letrado, pois ele lida com a instância da letra no inconsciente e com o sintoma do sujeito que nada mais é do que uma letra que fixa um gozo. Situa, assim, a psicanálise entre matema e poema.
Encontramos também em Lacan, evidenciado na última parte de sua obra - uma teoria da cultura e de seu mal-estar dentro da perspectiva inaugurada por Freud. O analista, dizia, deve ''alcançar a subjetividade de sua época'' e não ''abaixar sua armas diante dos impasses crescentes da civilização''. Dentro dessa perspectiva será realizado o Colóquio Internacional 2001: a odisséia lacaniana, nos dias 11 a 14 de abril, no Hotel Glória, para se debater a contribuição e o alcance do ensino de Lacan na psicanálise (na teoria e na clínica) e suas articulações com as diversas áreas do saber com o objetivo de reunir os instrumentos para se pensar o mal-estar na civilização do século 21
Mais conhecido por seu aforismo o ''inconsciente é estruturado como uma linguagem'', indício de sua contribuição dos anos 50 ao inserir a psicanálise no campo da linguagem e fazer sobressair assim a função da fala, Lacan também inovou a psicanálise nos anos 70, incluindo-a no ''campo do gozo'', denominado por ele de ''campo lacaniano''.
O gozo e seu campo é o conceito lacaniano que abrange o prazer e o desprazer, apontando como estes estão em continuidade - ele expressa a conjunção de Eros e Tánatos. O gozo não se deixa apreender totalmente; ele está sempre extravasando, transbordando, escapando como o tonel das Danaides, que contém um furo que faz com que elas estejam sempre o enchendo sem jamais o completarem. Ele se encontra no ato de se coçar e até mesmo no de se incendiar com gasolina, como os bonzos. Não há limite para o gozo. Entretanto, ele não pode ser reduzido ao sexo, pois não se deixa aprisionar pelo significante fálico. O que não quer dizer que seu campo não seja estruturado.
Antônio Quinet (psicanalista brasileiro).

3-DESEJO COMO PODER.
No centro da teoria lacaniana há uma crítica ao mal-estar na sociedade de consumo.
O conceito de gozo em Lacan corresponde ao que Freud descreve na segunda tópica como o para-além do princípio do prazer, e seus conceitos de masoquismo primordial, repetição, supereu, angústia, benefício do sintoma, reação terapêutica negativa e a pulsão de destruição - todos sucedâneos da pulsão de morte. O campo do gozo é, antes de tudo, um campo operatório e conceitual ''aparelhado'' pela linguagem. Os aparelhos para tratar o gozo são os laços sociais, que Lacan denomina ''discursos''. Trata-se de um discurso sem palavras, que vai para além das enunciações, Mesmo que não se diga nada, no momento em que se está dentro de uma relação com outra pessoa, se está inserido num discurso em que os atos importam mais do que as palavras. E aí aparecem modalidades de gozo distintas.
O campo do gozo com seus discursos é a resposta de Lacan ao mal-estar na civilização elaborada depois do movimento estudantil de maio de 1968 na França, que se caracterizou pela contestação geral da autoridade. Assim, retoma Freud que afirmou ser a relação entre as pessoas a maior fonte de sofrimento humano. O mal-estar é representado nos discursos por um elemento heterogêneo, o ''objeto a'', que expressa a parte excluída da linguagem e aquilo que a civilização exige que o homem renuncie, ou seja, os objetos de suas pulsões. Esse objeto recebe o nome de objeto ''mais-de-gozar'', extraído do conceito marxista de mais-valia.
Os quatro discursos - Os laços sociais e os atos ''os quatro discursos'' são ditos ''do mestre, do universitário, do analista e da histérica'' que correspondem às práticas de governar, educar, psicanalisar e fazer desejar. O poder, o saber, o sujeito e o gozo estão presente em todas essa práticas, porém de modos distintos. São laços sociais estruturados em torno da relação do agente e de seu outro (o parceiro), revelando a ''verdade'' a partir da qual cada agente se autoriza a agir e inscrevendo o que é esperado que o comandado, o outro, produza. O governante, no discurso do mestre, se autoriza a partir de sua subjetividade, esperando obter do governado a produção de objetos (manufaturados ou industrializados) para usufruir: objetos de gozo. O educador, no discurso da universidade, se autoriza do autor, da bibliografia, para impor o saber ao outro (o estudante) objetivado, produzindo por mais paradoxal que seja, um revoltado, um contestador, um cara-pintada. O analista, em seu discurso, se autoriza do saber do inconsciente para obter do sujeito-analisante sua pura diferença, sua particularidade. O desejante, no discurso histérico, que também podemos chamar de ''o provocante'', se autoriza de seu gozo impelindo o outro elevado à categoria de mestre a produzir um saber sobre sua verdade sexual.
Os quatro discursos determinam quatro distintas formas de ato: o ato governamental, o ato educativo, o ato histérico e o ato analítico. Cada modalidade de ato é caracterizado por seu agente: a lei, o saber, o sintoma e o objeto a. O que caracteriza um governo não é o que dizem os políticos, mas sim seus atos. O AI-5 pode ser considerado um paradigma do ato instituinte do discurso do mestre como ditatorial. O ato de educar é o tratamento do outro objetivado pelo saber: o que pode ocorrer na sala de aula, na administração, na mesa do bar, no consultório do analista. O setting não define o discurso, as palavras pronunciadas tampouco, e sim o ato. O ato histérico é fazer desejar, o que mostra algo que todos vivemos, ou seja, que cortejar, seduzir, atrair, azarar, faz laço social. O ato é sempre histérico quando produz no outro o desejo, inclusive o desejo de saber, e promove a verdade do gozo sexual. O ato analítico ocorre nesse laço inédito em que são promovidas a desidentificação aos ideais do Outro e a libertação do sujeito do poder mortífero das palavras. O tratamento do outro também varia: no discurso universitário, o outro é tratado como um objeto, como o estudante que ali está apenas para aprender. O ato legal ou de comandar visa o outro como um escravo, um operário, um trabalhador. O ato histérico se dirige ao outro como um mestre para estimular seu desejo. O ato analítico trata o outro como um sujeito.
O mal-estar é o produto dos discursos dominantes em nossa civilização: discurso do mestre, do universitário e do capitalista (variante atual do discurso do mestre).
O discurso do mestre é o laço civilizador que exige a renúncia pulsional, promovendo rechaço do gozo que retorna sob a forma do supereu, do qual o sentimento de culpa do sujeito é o índice que se manifesta através do olhar que vigia e da voz que critica. O discurso do mestre produz os dejetos da civilização - o que escapa à simbolização - sob a forma de mais-de-gozar. Ao se tomar a civilização através do que ela produz, Lacan chega a denominá-la de cloaca, a ''cloaca máxima''.
Tecnologia - Lacan acrescentou aos matemas dos quatro discursos, um matema para o discurso do capitalista que cria um sujeito, cuja causa de vida são os objetos de consumo produzidos pelo saber científico-tecnológico financiado pelo capital. Os imperativos do consumo, da moda, do utilitarismo e do capital não deixam espaço para a falta e o desejo do sujeito - eis porque Lacan diz que esse discurso rejeita a castração, conceito freudiano que aponta que somos e seremos sempre sujeitos incompletos, faltantes e faltosos, inscritos na diferença dos sexos. É um discurso sem lei, que não tem regulação alguma e que, longe de regular as relações entre os homens, segrega. Sua única via de tratar as diferenças é pela segregação imposta pelo mercado, determinando os que têm ou não acesso aos produtos da ciência. Daí a proliferação dos sem: terra, teto, emprego, comida, documentos, etc.
A sociedade regida pelo discurso capitalista se nutre da fabricação da falta de gozo, produzindo no lugar de sujeitos, insaciáveis consumidores. Estas relações sociais não estão centradas nos laços com outros homens, mas com objetos.
O mal-estar da civilização dominada pela ciência, como a nossa, se apresenta hoje como doenças predominantemente oriundas do discurso do capitalista, a nova e hegemônica modalidade do discurso do mestre. São essas doenças que o psicanalista é chamado a tratar. O discurso capitalista efetivamente não é exatamente um laço social na medida em que oferece ao sujeito tão somente um gadget, um objeto de consumo curto, rápido e descartável. Esse discurso promove, assim, um autismo induzido e um empuxo-ao-onanismo, fazendo a economia do desejo do Outro e estimulando a ilusão de completude não mais com a constituição de um par, e sim com um parceiro conectável e desconectável ao alcance da mão. Isso pode efetivamente levar à decepção, à tristeza, ao tédio e à nostalgia do Um, em vão prometido, ou a diversos tipos de toxicomanias, entre as várias doenças do discurso capitalista. O discurso do analista se coloca como a modalidade de tratamento do mal-estar que considera o outro como um sujeito - sujeito do inconsciente, do desejo, mas também de direito e da história.
Contra o imperativo do discurso capitalista, a psicanálise propõe essa falta que se chama desejo, sempre singular e plural, e a gestão não do capital financeiro, mas do capital da libido que por definição está sempre no negativo. E contra a segregação que dele deriva, ela traz a ética da diferença.
A mulher não existe - É ainda no campo do gozo que Lacan proporá as fórmulas da sexuação e as diferenças entre os gozos masculino e feminino, teorizando este último como um gozo para-além da linguagem, fora das amarras do falo, que longe de ser complementar, é suplementar ao gozo fálico. Os gozos não se complementam. Entre o homem e a mulher há um mal-entendido dos gozos. (Aliás é o que a patologia da vida cotidiana dos casais nos mostra, não é mesmo?) E a sexualidade feminina é abordada não pelo que as mulheres têm a menos, e sim pelo que elas têm a mais - um Outro gozo, comparado ao dos místicos. Isto por que as mulheres não estão totalmente submetidas à lógica fálica e sim à lógica do não-todo (pas tout). Elas são ''não-todas'', não totalmente inscritas no reino do falo. Assim, é do lado feminino que Lacan encontra a objeção ao falicismo, o qual constitui um universo fechado que forma uma totalidade, um ''todo'' a partir de uma exceção, o Pai, que funda a regra que governa os homens e regula seu gozo fálico. A mulher não constitui um universo, daí Lacan afirmar que ''A Mulher'' não existe (o famoso éternel féminin é uma quimera). O que existe são mulheres, que só podem ser contadas uma a uma, o que é bem diferente do batalhão masculino sob a égide de uma figura paterna idealizada ou ditatorial. O Outro gozo, o feminino, do qual as mulheres quase nada falam, aponta a radicalidade de uma outra lógica que não escapou ao movimento feminista na França e nos Estados Unidos. É uma lógica para-além do falo, uma lógica do Outro, da ''Heteridade''. E do qual ainda não extraímos todas sua conseqüências para pensarmos as instituições e mesmo a sociedade.
Assim, o campo lacaniano é um campo aberto a tudo que diz respeito ao gozo, podendo ser uma fonte para se pensar as questões cruciais do sujeito e da civilização, como por exemplo, responder a Derrida que, em seu discurso endereçado aos analistas nos Estados Gerais da Psicanálise em julho último em Paris, declara que a psicanálise é hoje a única disciplina que pode responder à questão da crueldade psíquica, apontando que a saída se encontra na abertura ao outro, ou seja na forma de tratamento que se dá aos parceiros dos laços sociais.
Nascido com o século que podemos chamar de freudiano, Lacan não só soube dar à psicanálise um lugar na cultura, fazendo-a dialogar com outros saberes, como mostrou que ela opõe uma resistência à cultura dominante totalizadora e totalitária que segrega, discrimina e exige do sujeito seu assujeitamento aos ideais e imperativos de sua época. Que este século que se inaugura com o centenário de nascimento de Lacan possa voltar fazer valer a psicanálise como a peste que Freud pretendeu trazer para as Américas. ( A.Q.)

4-''SESSÕES SUPERCURTAS SÃO ESCROQUERIA''
Para falar de Jacques Lacan, Elisabeth Roudinesco é mais do que credenciada: ela é autora da biografia do psicanalista Jacques Lacan: Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento (Companhia das Letras); escreveu a História da Psicanálise na França (Jorge Zahar Editor), e é co-autora, com Michel Plon, do Dicionário de Psicanálise (também da Zahar). Historiadora e psicanalista, Roudinesco é, também, vice-presidente da Sociedade Internacional de História da Psiquiatria e da Psicanálise, cujo presidente é o psicanalista René Major. ''Lacan foi o último dos grandes intérpretes de Freud e o único de sua geração a repensar todo o sistema freudiano'', ressalta, frisando que, no entanto, o lacanismo não passa de uma das correntes do freudismo.
Dizendo-se totalmente hostil às sessões de curta duração, inventadas por Lacan e levadas ao exagero por seus discípulos, ela explica por que Lacan questionou e transgrediu o tempo de 50 minutos estabelecido pela IPA (Associação Internacional de Psicanálise), diz que sessões supercurtas são pura escroqueria, defende a sessão de duração mínima entre 20 e 40 minutos e acrescenta, enfática: ''É preciso exigir isso''. Segundo Roudinesco, Lacan deu uma dimensão filosófica à obra de Freud, acrescentou uma teoria filosófica do sujeito e uma nova maneira de formar analistas e, por isso, fundou uma escola tornando-se, através de seus disputadíssimos seminários, um verdadeiro maître à penser. ''Lacan transgrediu todas as regras, inclusive reduzindo a duração das sessões ao estado-zero, mostrando com isso que o culto que envolvia sua pessoa o levava ao ponto extremo de sua ausência absoluta'', ressalta a biógrafa. De Paris, onde mora, Elisabeth Roudinesco, concedeu essa entrevista por telefone ao Idéias.
- A senhora é a autora de uma biografia de Jacques Lacan. Qual a importância de Lacan para a psicanálise?
- Enorme. Lacan é o último dos grandes intérpretes de Freud e o único herdeiro de Freud de sua geração a ter repensado todo o sistema freudiano. Ele filtrou a conceitualidade biológica de Freud através de um novo sistema que considera o inconsciente como uma linguagem. De certa forma, repensou tudo, inclusive o sistema de formação dos analistas. Lacan tem, por tudo isso, uma importância considerável.
- Lacan é, na sua opinião, o mais importante pensador da psicanálise depois de Freud?
- Houve outros muito importantes como Melanie Klein, por exemplo, que também refundou o sistema freudiano. Desde Freud, os pensadores importantes da psicanálise são os que fizeram escola. Melanie Klein, por exemplo, que é freudiana, repensou toda uma parte do sistema de Freud. Mas Lacan foi mais longe porque ultrapassou o campo da clínica. Melanie Klein trouxe a questão das relações arcaicas com a mãe, inventou a psicanálise de crianças, mas Lacan foi mais longe. Ele inventou um novo conceito no que diz respeito a Freud e deu uma dimensão filosófica à sua obra, acrescentou uma teoria filosófica do sujeito e uma nova maneira de formar analistas. Houve outras figuras muito importantes depois de Freud, é claro, mas acredito que Lacan é um verdadeiro refundador.
- Por que Lacan não publicou seus casos, com exceção de sua tese?
- Por que era uma época muito diferente. A tradição de publicação dos casos é uma tradição inglesa, num país onde a psicanálise era limitada a clínicos e onde os casos eram lidos por poucas pessoas, não tinham uma audiência popular. Os Estados Unidos também publicaram casos porque a psicanálise tinha ficado muito clínica. Tendo se tornado um maître à penser que fazia um seminário, que era seguido por tanta gente, era difícil para Lacan publicar casos porque isso tomaria uma dimensão que possibilitaria as pessoas a se reconhecerem facilmente. Penso também que a característica de Lacan não era publicar casos clínicos mas, antes, voltar sobre o comentário dos grandes casos de Freud. Ou de comentar o caso dos outros. Nesse sentido, há provavelmente uma lac